TRUMPISMO: O COMEÇO DO FIM

A falsa força que anuncia o colapso

Há um equívoco recorrente — e profundamente perigoso — na forma como certos movimentos políticos contemporâneos se apresentam ao mundo: a crença de que desprezar a lei é sinal de força. Nada poderia ser mais enganoso.

Quando um governante passa a agir como se não estivesse submetido a nenhum limite jurídico — nem às leis do próprio país, nem às de outras nações, nem às normas internacionais — o que se revela não é soberania, mas ruptura. Não é poder, é descontrole. Não é liderança, é incapacidade de conviver com freios institucionais. A política deixa de ser exercício de responsabilidade e passa a ser expressão de vontade bruta e desgovernada.

Esse padrão não surge do acaso. Ele se manifesta com clareza no chamado trumpismo, fenômeno que guarda equivalência estrutural com o bolsonarismo e com formas extremadas do nacionalismo israelense contemporâneo. Não se trata de igualar histórias, culturas ou realidades nacionais distintas, mas de reconhecer vetores comuns de erosão democrática que atravessam esses projetos de poder e produzem efeitos semelhantes.

O primeiro desses vetores é o desprezo ao Judiciário. Em todos esses modelos, tribunais deixam de ser instituições de controle constitucional e passam a ser tratados como obstáculos políticos. Juízes só são legítimos quando confirmam a vontade do governante; quando impõem limites, tornam-se “inimigos”, “corruptos” ou “aparelhados”. A separação de poderes — núcleo do constitucionalismo moderno — é substituída por uma lógica autoritária que reivindica para o Executivo o monopólio da interpretação da vontade popular.

O segundo vetor é a normalização da violência. A violência deixa de ser exceção trágica e passa a ser instrumento político aceitável. Seja no discurso interno, seja na política externa, a força é exaltada como linguagem legítima do poder. Mortes, repressões e violações transformam-se em “efeitos colaterais” inevitáveis, quando não em atos celebrados. Com isso, o horror perde lugar para a indiferença, e a brutalidade passa a integrar o cotidiano político sem causar escândalo.

O terceiro vetor, talvez o mais profundo, é a relativização dos direitos humanos. Direitos deixam de ser universais e passam a ser condicionais. Valem para alguns, não para todos. Migrantes, minorias, opositores políticos ou populações estrangeiras tornam-se vidas hierarquizadas, cuja dignidade pode ser suspensa em nome da segurança, da soberania ou de uma moral seletiva. É a negação direta do pacto ético construído após as grandes tragédias do século XX.

É nesse sentido que se pode falar em um “bolsonarismo piorado”: isso porque o trumpismo opera com os mesmos mecanismos de erosão institucional, agora potencializados por um poder econômico, militar e simbólico incomparavelmente maior. O risco, portanto, deixa de ser local ou conjuntural e passa a ser civilizatório.

Há quem interprete essa postura como força, todavia, tal interpretação só encontra lugar em mentes ignorantes. A história é implacável ao ensinar o oposto. Governantes que se colocam acima da lei inevitavelmente se tornam ameaça concreta até mesmo contra a própria institucionalidade que os conduziu ao poder. Ao rejeitar o direito, não se afirmam como líderes excepcionais, mas como figuras incapazes de conviver com freios civilizatórios. A verdadeira força política não está em agir fora da lei, mas em suportar o peso de governar submetido a ela.

Quando o exercício do poder abandona parâmetros legais e morais, não se inaugura uma nova ordem, mas um vazio, uma lacuna que poderá ser preenchida pelo caos, a menos que a civilização através das leis e instituições restaure o controle e, assim, evitem o colapso.

A pergunta que permanece, então, é esta: em que momento do devaneio trumpista a própria sociedade norte-americana decidirá que ele não pode — e não vai — continuar?

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