Rafael Wenceslau*
Essa ação do megalomaníaco Donald Trump contra a Venezuela não é apenas juridicamente ilegítima; ela é historicamente míope. Há pouco mais de duzentos anos, em um cenário infinitamente mais desfavorável — sem indústria bélica, sem apoio externo relevante e enfrentando impérios europeus em seu auge militar e econômico — o povo venezuelano decidiu resistir. Sob a liderança de Simón Bolívar, não apenas resistiu, como venceu. A independência da Venezuela não foi fruto de concessão graciosa, mas de enfrentamento direto ao colonialismo, sustentado por um custo humano altíssimo e por uma convicção inegociável de liberdade. Essa memória não é retórica: ela estrutura a identidade política e simbólica do país.
Ignorar esse dado histórico é cometer um erro elementar, grosseiro. A Venezuela de hoje, ainda que fragilizada economicamente por sanções internacionais, encontra-se em posição incomparavelmente distinta daquela do século XIX. Não está isolada. Mantém relações estratégicas com potências nucleares como Rússia e China, o que altera profundamente qualquer cálculo de imposição externa pela força ou pela intimidação prolongada. A tentativa de submeter o país a uma nova era de domínio por parte de um novo “colonizador” não enfrenta um território vazio de memória e cujas engrenagens de resistência ainda sejam embrionárias, mas uma sociedade marcada pela experiência concreta de resistir e de vencer o domínio estrangeiro.
Nesse contexto, seria plausível supor que um povo que derrotou impérios quando nada tinha aceitaria, agora, retornar voluntariamente às engrenagens do colonialismo para entregar suas riquezas naturais — especialmente o petróleo — a um projeto personalista que despreza normas internacionais e substitui o direito pela vontade individual de um extremista que ocupa temporariamente a presidência dos EUA? A história sugere o contrário. Mais ainda: ela indica que insistir nesse caminho pode produzir o efeito inverso ao desejado.
Ao atacar de modo tão grosseiramente ilegal um país com tradição de resistência, em uma região marcada por memória anti-imperial e em um cenário global multipolar, a política da força corre o risco de gerar um conflito economicamente inviável para o agressor e ao mesmo tempo moralmente indefensável. Não por acaso, a analogia que se impõe não é a de uma vitória dos EUA, mas a de um atoleiro imprevisível que tanto pior poderá se tornar para os EUA à medida que a Venezuela decide resistir, pois nessa matéria – resistência – o povo Venezuelano tem experiência.
Se há uma lição que o século XX deixou, é que a imposição externa sobre povos que se percebem como defensores de sua soberania não alcança a submissão pretendida, e ao mesmo tempo gera o fortalecimento da resistência.
Nesse sentido, a tentativa de tomar o poder na Venezuela devido às riquezas naturais lá existentes, inclusive realizando uma agressão nunca antes feita contra país algum, (sequestro de seu presidente), não apenas carece de legitimidade jurídica e moral — mas pode estar despertando, no coração da América do Sul, um novo e imprevisível Vietnã cujos aliados incondicionais são nada menos do que Rússia e China, que, nesse momento, já estão a caminho.
* Advogado, teólogo, escritor e analista político.



