
Rafael Wenceslau*
Quando a política passa a usar a linguagem do sagrado para legitimar projetos de poder, algo profundamente perigoso acontece — tanto para a fé quanto para a democracia.
Comparar a entrega de um filho a uma “missão de resgate do Brasil” com a narrativa cristã de Deus entregando Jesus ao mundo não é um gesto de fé, mas de apropriação simbólica. No cristianismo, o sacrifício de Cristo não tem relação com herança, sucessão ou manutenção de poder. Pelo contrário: Jesus rejeitou explicitamente o messianismo político e afirmou que o seu Reino não era deste mundo. Ele não fundou dinastias, não abençoou sucessores e não blindou decisões com autoridade espiritual.
Transformar uma escolha política em ato sagrado distorce o Evangelho e banaliza o núcleo da fé cristã. A lógica bíblica não é a da imposição, da linhagem ou do controle, mas a do serviço, da humildade e da verdade. Quando um líder se coloca como alguém que “entrega” e “consagra”, assume para si um papel que, na fé cristã, simplesmente não lhe pertence.
O risco não para aí. Sacralizar a política também ameaça a democracia. Quando uma candidatura é apresentada como missão, qualquer crítica passa a ser tratada como traição, maldade ou ataque moral. O debate deixa de ser político e se torna religioso — e, onde o sagrado é invocado, o contraditório perde legitimidade. Democracia exige pluralismo, disputa aberta e liberdade de crítica. Não exige devoção.
A Constituição brasileira garante a liberdade religiosa, mas não autoriza a transformação da fé em instrumento de dominação política. Misturar salvação espiritual com projeto de poder enfraquece instituições, divide consciências e empobrece o debate público.
No fim, esse tipo de discurso não fortalece o cristianismo — ele o instrumentaliza. E não fortalece a democracia — ele a corrói. A fé perde quando vira ferramenta. A política perde quando vira culto. E a sociedade perde quando aceita essa confusão como algo normal.
* Advogado, teólogo, escritor e analista político.



