Crescimento de casos de meningite no Brasil reacende alerta: Conheça os sintomas e tratamentos

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Em questão de horas, um mal-estar banal pode se transformar em uma corrida contra o tempo. Assim avança a meningite, doença grave e de evolução fulminante que tem colocado profissionais de saúde em estado de alerta devido ao aumento de casos no país. O médico pediatra, alergologista e imunologista Dr. Marcos Gonçalves, presidente da Sociedade Alagoana de Pediatria, que ministrou uma aula sobre o assunto para evento da biofarmacêutica GSK, em São Paulo, alertou que as formas mais frequentes são as infecciosas, desencadeadas por vírus ou bactérias. Confira abaixo os principais sintomas, riscos, prevenção e tratamento.

Os últimos dados do Ministério da Saúde apontam que os casos de meningite, especialmente na forma bacteriana, voltaram a subir em diversas regiões do país, impulsionados principalmente pelo sorogrupo B do meningococo. Segundo o especialista, a rápida evolução da doença, o diagnóstico difícil nas primeiras horas e a alta letalidade tornam a meningite uma das emergências médicas mais graves da pediatria.

O que é meningite e por que ela preocupa tanto?

A meningite é uma inflamação das meninges, membranas que protegem o cérebro e a medula espinhal. Embora possa ser viral, bacteriana ou causada por fungos e protozoários, as formas bacterianas são as mais preocupantes devido ao risco elevado de complicações e morte.

Entre os agentes mais comuns, 80% dos casos são causados por duas bactérias:

  • Neisseria meningitidis (meningococo)
  • Streptococcus pneumoniae (pneumococo)

A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica a meningite bacteriana como uma doença de evolução rápida e imprevisível, que pode levar a óbito em até 24 horas após o surgimento dos primeiros sintomas.

Sintomas: por que o diagnóstico é tão difícil?

O primeiro desafio para reduzir mortes é reconhecer precocemente a doença. Segundo o especialista, as manifestações iniciais, nas primeiras 8 horas, são inespecíficas e facilmente confundidas com virose, gripe ou dengue.

Entre os sinais precoces, estão:

  • febre,
  • irritabilidade,
  • sonolência,
  • náusea e vômito,
  • dores no corpo,
  • perda de apetite,
  • dor em membros inferiores,
  • coriza.

Entre 9 e 15 horas, surgem sintomas mais característicos:

  • rigidez de nuca,
  • fotofobia,
  • manchas hemorrágicas na pele (petéquias/púrpuras),
  • má perfusão periférica.

A partir de 16 horas, o quadro pode se tornar crítico com:

  • confusão mental,
  • convulsões,
  • queda da pressão arterial,
  • choque séptico,
  • falência múltipla de órgãos,
  • óbito.

O Dr. Marcos Gonçalves enfatiza: “Não costumam identificar cedo e, quando identificam, nem sempre tratam corretamente”, um dos fatores que contribuem para o alto índice de mortes.

Transmissão: não é pelo ar como a gripe

Um equívoco comum quando se fala em meningite é afirmar que a doença é transmitida pelo ar. A meningite bacteriana não se transmite como gripe. Ela exige contato próximo e ocorre através de:

  • gotículas respiratórias,
  • saliva,
  • beijo,
  • tosse e espirro à curta distância,
  • compartilhamento de objetos pessoais.

Essa dinâmica explica por que surtos são mais frequentes em: dormitórios universitários, creches, escolas, ambientes de grande circulação e convivência prolongada.

Panorama atual: por que os casos voltaram a subir?

Segundo os dados do painel nacional de meningite,do Ministério da Saúde, o Brasil vive o aumento da Doença Meningocócica Invasiva (DMI). Os casos de DMI, a forma mais grave, voltaram a crescer desde 2021.

Em 2025, o país já registrava:

  • 833 casos de DMI
  • 165 mortes
  • Cerca de 60% dos casos causados pelo sorogrupo B.

Mudança no perfil epidemiológico

Por muitos anos, o sorogrupo C era predominante. Após a introdução da vacina MenC no SUS, houve uma redução de 17 vezes na incidência em crianças menores de 1 ano entre 2010 e 2024.Com o controle do sorogrupo C, o meningococo B emergiu como o mais incidente, superando os demais sorogrupos:

  • Desde 2015, é a principal causa de meningococcemia entre bebês,
  • Representa 7 em cada 10 casos em menores de 1 ano,
  • Teve crescimento de 6,6 vezes na taxa de incidência entre 2021 e 2024.

Por que o sorogrupo B preocupa mais?

Além de ser o mais prevalente, o MenB apresenta características que aumentam sua gravidade:

  • sua cápsula bacteriana é menos imunogênica, o que dificulta ser reconhecida pelo sistema imunológico
  • a doença costuma evoluir de forma extremamente rápida,
  • acomete principalmente lactentes,
  • possui alta taxa de letalidade,
  • e é responsável por sequelas severas em sobreviventes.

Em Alagoas, por exemplo, a letalidade da doença meningocócica chegou a 60% em 2024, segundo dados do Instituto Adolfo Lutz, muito acima da média global de 8% a 15%.

Sequelas: o impacto que permanece para toda a vida

Entre os sobreviventes, estudos mostram que: 1 em cada 10 tem sequelas graves; 1 em cada 5 apresenta algum grau de incapacidade permanente; Em bebês, esse número pode chegar a 50%.

As sequelas podem incluir:

Físicas: amputações, cicatrizes extensas, insuficiência renal;

Neurológicas: convulsões, perda auditiva, déficit cognitivo e motor;

Emocionais/comportamentais: ansiedade, dificuldades de aprendizado, alterações de comportamento.

Diagnóstico: como é confirmada a meningite?

O diagnóstico depende de:

  • exame clínico,
  • hemograma e exames laboratoriais,
  • exames de imagem,
  • punção lombar.

O líquido cefalorraquidiano permite:

  • isolar a bactéria,
  • identificar sorogrupo,
  • realizar PCR,
  • definir tratamento adequado.

O exame precisa ser feito rapidamente, e o início do antibiótico não pode atrasar.

Tratamento: rapidez é a diferença entre a vida e a morte

O manejo emergencial inclui:

  • antibióticos,
  • intubação se necessário,
  • controle de convulsões,
  • hidratação venosa,
  • suporte hemodinâmico,
  • isolamento respiratório,
  • avaliação contínua em UTI pediátrica.

Quanto mais cedo o tratamento é iniciado, maiores as chances de sobrevivência.

Prevenção: vacinação é a principal estratégia

De acordo com a Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e a Organização Mundial de Saúde (OMS), a vacinação é a melhor forma de prevenir a doença bacteriana. Entretanto, o Programa Nacional de Imunizações (PNI) brasileiro cobre apenas parte dos agentes:

Disponíveis no SUS:

  • BCG (protege contra formas graves de meningite por tuberculose)
  • Hib (Haemophilus influenzae b)
  • Pneumocócica (PCV10)
  • Meningocócica C
  • Meningocócica ACWY (para adolescentes e, desde 2025, para bebês aos 12 meses)

Disponíveis apenas na rede privada:

Essa lacuna gera preocupação, já que o sorogrupo B é atualmente o mais prevalente entre crianças pequenas.

Especialistas defendem que a ampliação da vacina MenB para o SUS poderia reduzir significativamente casos graves, hospitalizações e mortes, tendência observada em países que já incorporaram o imunizante em seus programas nacionais.

OMS tem meta global de eliminar epidemias de meningite até 2030

A Organização Mundial da Saúde estruturou cinco pilares para reduzir casos e mortes:

  1. Prevenção e controle de epidemias,
  2. Diagnóstico e tratamento rápidos,
  3. Vigilância contínua,
  4. Atenção às sequelas em sobreviventes,
  5. Conscientização pública.

O Brasil, porém, ainda enfrenta desafios no primeiro pilar: a ampliação do acesso à vacinação completa.

O que pais e responsáveis devem observar?

Em bebês, especialmente menores de 2 anos, qualquer sinal de:

  • irritabilidade intensa,
  • dificuldade para mamar,
  • sonolência excessiva,
  • vômitos persistentes,
  • manchas roxas,
  • abaulamento da fontanela,

A presença de um ou mais desses sintomas exige busca imediata por atendimento médico. O tempo é o fator mais decisivo na meningite.

 Escrito por Portal Leo Dias

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