Hoje, completam-se 44 anos da morte de uma das figuras mais marcantes da religiosidade popular brasileira na Amazônia: Irmão José da Cruz (José Fernandes Nogueira, também conhecido como José Francisco da Cruz). Nascido em 3 de setembro de 1913, em Cristina (Minas Gerais), ele faleceu em 1982, aos 72 anos, na comunidade que fundou na região do Alto Solimões, Amazonas (próximo a Santo Antônio do Içá). Seu túmulo e sua memória continuam a atrair devoção entre ribeirinhos, indígenas (especialmente Ticunas) e fiéis espalhados pelo Brasil e Peru.
Origem e Vocação
Filho de uma família simples de agricultores, José desde cedo demonstrou forte vocação religiosa. Sua mãe, grávida, fez um voto ao Sagrado Coração de Jesus prometendo entregá-lo à Igreja caso ele sobrevivesse a uma grave doença. Ele tentou ingressar no seminário duas vezes, mas não foi aceito, possivelmente por questões financeiras ou outras barreiras. Casou-se, teve sete filhos e, por volta de 1944, relatou ter recebido visões celestiais que mudaram sua vida.
Nessas visões, teria recebido uma cruz apostólica e a missão de pregar o Evangelho, anunciando uma “Terceira Reforma Cristã”. Abriu mão da vida familiar nos anos 1950, vestiu uma batina franciscana (que nunca mais tirou), deixou a barba crescer e começou longas peregrinações carregando uma pesada cruz de madeira (cerca de 13 kg), às vezes usando cilício. Percorreu milhares de quilômetros por Minas Gerais, São Paulo, Sul do Brasil, Centro-Oeste e, depois, pela Amazônia brasileira e peruana – relatos falam em até 38 mil km de caminhadas.
Missionário na Amazônia
A partir do final dos anos 1960 e início dos 1970, Irmão José da Cruz concentrou sua atuação no Vale do Juruá (Acre) e Alto Solimões (Amazonas). Vestido como frade, com aparência magra, barba longa e estatura mediana, pregava com fervor, realizava batismos, casamentos e erguia grandes Santos Cruzeiros nas comunidades ribeirinhas e aldeias indígenas, sempre às 15h (hora da morte de Cristo). Fundou a Irmandade da Santa Cruz (ou Ordem Cruzada Católica Apostólica Evangélica) em 1972, um movimento messiânico e apocalíptico dentro do catolicismo popular.
Seus seguidores relatam multidões que o acompanhavam por rios em procissões fluviais. Ele fundou a Vila Alterosa ou Vila UPA (União Para a Ação de Jesus), uma comunidade simples com igreja, hospital e asilo sobre palafitas, que se tornou sede espiritual do movimento. Entre os Ticunas e outras etnias, foi visto como um messias ou profeta, ajudando na organização comunitária e na resistência cultural em meio à exploração histórica da região.
Milagres e lendas: Devotos contam curas milagrosas (como de sarampo e outras doenças), multiplicação de alimentos, visões, estigmas, andar sobre as águas e proteção contra animais selvagens. Ele era conhecido por jejuns prolongados, orações intensas e uma vida austera. Foi preso em Tabatinga (AM) na década de 1970, o que, para muitos, reforçou sua imagem de santo perseguido. A Igreja Católica institucional via-o com reserva – ele nunca foi ordenado padre –, mas em alguns lugares houve acolhida de bispos e padres locais.
Legado e Memória Atual
Após sua morte em 1982, o movimento quase enfraqueceu, mas foi retomado por sucessores como Walter Neves. Hoje, a Irmandade mantém seguidores em dezenas de aldeias indígenas no Brasil e Peru, com presença até em capitais. O culto aos cruzeiros que ele plantou persiste no Juruá e Solimões, onde fiéis vão em romaria, pedem graças e celebram sua memória.
Irmão José da Cruz representa o catolicismo popular amazônico: uma fé simples, carismática e adaptada à realidade dos ribeirinhos e indígenas, longe dos centros urbanos e da estrutura romana. Para muitos, ele foi um “santo apócrifo”, canonizado pela devoção do povo, que via nele um novo Francisco de Assis ou profeta enviado para a floresta.
Sua história mistura misticismo, dedicação missionária e controvérsias (críticas sobre aspectos econômicos do movimento ou rigidez de regras), mas acima de tudo perdura como símbolo de fé, esperança e resistência cultural na Amazônia.






